O que é Crime?

13/04/2011 § 1 comentário

Manhã de 07 de abril de 2011 em uma escola no bairro de Realengo no Rio de Janeiro. Um crime que abalou o Brasil estava prestes a acontecer e chocar a sociedade.  Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, disparou mais de 100 tiros em duas salas no primeiro andar da escola. Dez meninas e dois meninos, entre 12 e 15 anos, morreram. Dez meninas e dois meninos ficaram feridos. Logo após o atentado, o assassino suicidou-se.

Essa notícia correu por todo o mundo nos últimos dias e deixou muitos brasileiros  inconformados com o ocorrido. Cada um especulando a sua maneira o que teria levado uma pessoa a cometer um crime tão bárbaro, e aguardando a justificativa dos “especialistas” para fundamentar de alguma forma racional o massacre. E estes especialistas aparecem em vários momentos na mídia sendo cobrados a responder de alguma forma racional a causa que levaria um jovem a cometer tal tragédia.

Deve-se lembrar que o comportamento de um criminoso não é apenas marcado por um caráter natural, imutável e absoluto. É sim uma realidade variável que está marcada por aspectos socioculturais e pelas relações de poder que permeiam a vida. Estamos acostumados a ver variados tipos de crime relacionados ao narcotráfico ou crimes contra o patrimônio de alguém ou publico. Nesses é mais fácil encontrar uma justificativa para o acontecimento: são sustentados por interesses econômicos, políticos… Porém é muito instigante ver o crime de outro ponto de vista. Não era guerra do tráfico, era uma pessoa com motivações próprias para tirar a vida de crianças inocentes. O que pensar nesse momento?

Se há uma resposta para essa questão, cabe a cada um de nós refletir e tirar nossa própria conclusão, e não apenas cairmos nas garras da mídia que se sustenta apenas na possível psicopatia e no isolamento social que esse indivíduo sofria, sem ao menos citar que este não é um problema isolado, e sim uma das conseqüências da fábrica de desigualdade que é a nossa sociedade. É fato que tais circunstâncias são peças para montarmos esse quebra-cabeça, mas não podemos esquecer-nos de diversos outros âmbitos que se evolvem direta ou indiretamente na relação desse crime.

Este cenário evidencia a singularidade dos efeitos diferentes que a conduta criminosa pode desencadear em cada vítima. Além de um fenômeno social, o crime passa a ser um episódio determinante na vida de um indivíduo. Impossível de ser analisado através de uma única ótica conceitual, o crime comporta uma individualidade que extrapola qualquer tentativa de ser reproduzido.

A Criminologia, que em regra geral pode ser definida como o estudo do crime e do criminoso (criminalidade), destaca a suma importância de se analisar as várias causas existentes e muitas ainda desconhecidas, que incidem sobre o agente do ato anti-social, não podendo, por esta via, reduzir o estudo desta ciência à figura humana.

Geralmente o que se vê é o conceito que se elabora do “mal” sendo confundido com aquele que o pratica. Dessa lamentável perspectiva origina-se uma limitação na capacidade de se combater de maneira eficiente o mal propriamente dito.

Surge a necessidade de se extinguir princípios distorcidos que imperam em nossa sociedade. O crime não é o criminoso, o vicio não é o viciado, a doença não é o doente. Assim como se combate a enfermidade e não o enfermo, é preciso que o mesmo movimento seja aplicado contra o crime e não o criminoso.

Por esta via, o que nós “normais” vamos fazer sobre os “anormais”? Infelizmente, ainda caímos nessa dicotomia na maioria das vezes em que discutimos um caso de violência bárbara. Como universalizar a normalidade, essa que abrange contextos históricos, sociais e psíquicos inerentes a cada indivíduo?

É como se pudéssemos explicar os fatos entre as relações humanas com a exatidão que se encontra em equações matemáticas. Necessita-se de rotulações para se defender daquilo temido, aquilo que não se pode controlar, que foge do que é esperado. A sociedade passa a definir crime e selecionar a clientela do sistema penal, um viciante processo de enquadramento que mascara o medo diante do indomável.

As postulações em torno do crime acabam por evidenciar interesses políticos e econômicos. Reduz o ato criminal a um produto de algumas partes da sociedade, aquilo que rompe com a harmonia social.

Todo o discurso criminal divulgado pelos meios de comunicação em massa passa a identificar o crime como uma patologia, contaminação social, satisfazendo uma proposta de medicalização do social. Há focos de contágio que devem ser combatidos.

Juntando estes indícios, tende-se a expor que a realidade do crime não se restringe a fatos isolados, a sensação de insegurança engloba muitos outros fatores como o desemprego, falta de moradia, descaso com a saúde, escassa educação, entre tantos fatos rotineiros que ultrapassam o cenário da violência criminal.

O que o Wellington fez,  é sim condenável e visto com repulsa por todos nós, mas será que o problema maior não venha da junção de inúmeros sistemas falhos da nossa sociedade?

Autoras: Lorena, Mariana e Zilda

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