Fazer morrer, deixar viver. Fazer viver, deixar morrer.

05/04/2011 § 3 Comentários

Século XVII

No reino do João Carlos V reina a espada. Como na maioria dos reinos de sua época o povo presta serviência ao seu soberano que sobre eles tem o poder. Dele é a terra, os campos, a lavoura, os bens, suas vidas. Pois a ele cabe a decisão de morte ou vida. Assim, o rei deixa viver aqueles que o obedecem e faz morrer os que lhe apraz.

Século XX

São 6 horas da manhã e o despertador toca acordando Teresa. Automaticamente ela salta da cama, pois o tempo é preciso e há muito que fazer. Faz a sua higiene matinal, veste seu uniforme e come suas torradas com manteiga e geléia acompanhadas de suas vitaminas. Chegando à escola procura logo o seu assento marcado pelo mapa de sala. Às 7:10 toca o primeiro sinal e enquanto a professora entra em sala os alunos procuram se ajeitar: João tira o pé de cima da mesa, Maria vira pra frente e Carla cutuca Teresa que não parava de fofocar. No devido silêncio e ordem  faz-se a chamada e a aula começa. Geografia. “Abram seus livros na página 35. Hoje estudaremos sobre densidade demográfica” – diz a professora.

Os dois relatos acima retratam momentos distintos da historia com formas distintas de exercício do poder. Foucault em sua análise histórica desse exercício traz idéia de dois regimes: fazer morrer e deixar viver; e fazer viver e deixar morrer. Esses regimes lidam de modos diferentes com a morte, a vida e o os corpos.

Na época da soberania, retratada na historieta do reino de João Carlos V, a máxima era “fazer morrer, deixar viver”. O poder de um soberano reside sobre seus territórios. A esses territórios pertencem também os camponeses. Assim, quando um rei conquista novas terras em uma guerra, por exemplo, ele também conquista as pessoas que lá viviam, passando a exercer sobre eles o poder de vida e morte. A vida e a morte dos súditos só se tornam direito pelo efeito da vontade do soberano.

Não há nesse período uma preocupação com produção de vida. Essa surge com a biopolítica, com a visão política voltada para o corpo, para o indivíduo e não mais para o território. É o regime do “fazer viver, deixar morrer”. A gestão de vidas passa, nessa ótica, pela disciplinarização dos corpos buscando torná-los úteis e dóceis para o modo de produção capitalista. A história de Teresa reflete essa disciplina e cuidado do corpo. O automatismo das ações, a busca de corpo “saudável”, a postura correta e o mapeamento da sala são estratégias da disciplina presente no biopoder, que visam otimizar as energias do corpo para que se tornem forças produtivas.

Esse biopoder que no primeiro momento está voltado para o indivíduo através da disciplina, da produção de corpo dócil, no segundo momento assume a forma de biopolítca onde o enfoque não é mais o corpo-indivíduo, mas o corpo-espécie. Em sua aula de geografia Teresa estuda a densidade demográfica. Isso porque a política volta-se para população buscando entender e regular e controlar as taxas de natalidade, mortalidade, longevidade e a saúde da mesma. Diversos saberes são incumbidos de produzir “verdades” ou discursos que atendam ao interesse, e permitam a continuidade, dessa biopolítica.

Se toda essa prática atende o “fazer viver”, como se exerce  o “deixar morrer”?

No biopoder o Estado só tem a sua função assassina através do racismo. Ele opera como corte na população separando o que deve viver e o que deve morrer. O sujeito alvo do racismo, e entenda racismo aqui em sua forma mais ampla de segregação,  é sujeito de vida nua, não possuidor de direitos e por isso passível de morte. A ideologia nazista concentrava em seus campos esses sujeitos. Na ânsia por uma raça pura a morte do outro é em favor da vida, pois é uma eliminação não de adversários, mas de perigos para a população.

Pensar essa produção de sujeito de vida nua apenas no período do nazismo não é possível. Ela permeia as ações políticas e cosmovisão da sociedade vigente. Basta olhar mais criticamente as reportagens e o discurso da população a respeito das ações policias nos morros e favelas:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2011/03/25/operacao-policial-mata-lider-de-trafico-de-drogas-em-violento-bairro-de-salvador.jhtm

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,empresas-lucram-com-pacificacao-de-favelas,not_54803,0.htm

Toda essa discussão nos faz questionar, inda que longe de encontrar resposta: como nós, enquanto sujeitos de direitos, podemos produzir saberes que atuem como questionadores desse modo de produção de subjetividades? Como produzir políticas de resistência? E mais ainda, onde esse exercício de poder pode nos levar?

PS: Sugerimos que leiam os comentários das reportagens postadas acima.

Postado por Julia Alano e Tatiane Francisco.

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