Judicialização da escola

10/05/2011 § 3 Comentários

Escola não é só lugar de aprendizado não. É também um dos espaços instituídos para proteger, para vigiar, fazer seguir uma norma ilusória que nunca ocorrerá resistências. Quem irá educar essas crianças? Colocar eixo? Ordem na bagunça? Essas novas famílias e seus filhos pedem socorro à escola, a tia. Por quê? O que se perdeu nesse meio caminho até a escola? O que se possibilita entregando mais um aspecto da sua vida para alguém controlar? Vamos estudar para quê? Para quem? Para saber como produzir mais categorias normalizadoras? Sua vida não se sente afetada? Escolas, faculdades, cursos de especialização… Estudarmos o tempo inteiro para aprender mais coisas para estudar, para quê? Ficarmos sem tempo? Para construirmos uma única visão de estar no mundo? O que fazemos com tanto “conhecimento” produzido? Quem inventou esse negócio de escola? Alguém saberia definir sua função? Mas como ela atua?
Estes são apenas alguns questionamentos que podem e devem ser feitos.
A escola não é e nunca foi a mesma. Na Idade Média, só para ilustrar, ocorria a mistura de idades nas classes e os conhecimentos não eram hierarquizados. Da mesma forma, antigamente, o professor era apenas aquele que apontava caminhos. Na modernidade, ele domina certos saberes.
Foucault aborda as escolas, bem como hospitais, prisões, etc., de um jeito interessante. Estas seriam “instituições de seqüestro” já que retiram indivíduos de espaços sociais amplos e os confinam por um longo tempo na intenção de moldar suas condutas e seus comportamentos. Mas a escola também é lugar de criação de si e de modos de viver, em que as normas e regras inventadas no movimento da vida, devem ser o tempo todo repensadas e reelaboradas. A escola deve ser um dispositivo para potencializar a vida, não uma categorizadora de vidas, encaixando, enquadrando, fazer caber cada vida numa gavetinha específica para se guardar, vigiar e manter. Como foi visto, o poder judiciário e suas instituições ocupam cada vez mais lugar de relevância em nossas vidas, penetrando inclusive a escola.
A dimensão educativa desaparece cada vez mais do espaço escolar e nesse vazio, outros saberes são convocados a ocupar tal lugar, produzindo uma medicalização da vida escolar. Um exemplo dessa medicalização se daria na relação fixa entre o não-aprender e a doença, ou seja, você não consegue aprender porque você tem esse transtorno, essa doença, ocasionando assim um número cada vez maior de crianças com diferentes diagnósticos. Esse encontro entre judicialização e medicalização no ambiente escolar acaba por promover processos de homogeneização e exclusão dos indivíduos.
A naturalização do fracasso e da inferioridade de certos alunos também são apontadas nesse contexto, como se decorressem de deficiências inerentes ao indivíduo ou então, de variáveis sociais, como o baixo nível econômico de sua família. Não se olha o ritmo de aprendizagem de cada aluno que por sinal é único, ao contrário, privilegia-se a maximização dos erros e a manutenção de relações verticais em ambientes escolares, no qual o professor emite freqüentes ordens que devem ser obedecidas por seus alunos à mercê de punição, caso não cumpram.
A proteção é também enfatizada e se mostra presente em discursos e práticas escolares, compelindo ao professor a tarefa de vigiar e identificar possíveis sinais e sintomas da violência contra a criança, efetivando-se julgamentos morais que buscam localizar apressadamente agressores e vítimas e aplicar ações coercitivas sobre tais, sem ao menos problematizar aquilo que se apresenta como sintoma. É um sintoma de uma vida que se atualiza e se faz moralizante, reguladora, empobrecendo em si mesma, vivemos pra nós e por nós, aos outros só nos cabe julgar.
Será necessária uma ordem para que essas crianças não se percam na vida? Alguém que as vigie o tempo todo? Se não for à escola, estes pequenos estarão sujeitos as coisas perigosas da rua? Será que tem que ser assim?
Meninos, não fiquem na rua. Brincar de bola, pique, rodas não se pode. Vá brincar dentro de casa, onde se pode correr a vontade sem quebrar nada e ainda é mais seguro. Use bem o computador, estamos na era do futuro. Não brinque com o vizinho, ouvi dizer que a família dele é muito desestruturada. Não vá pra rua não, já disse, é perigoso. Esse menino é muito agitado dentro de casa, vou ter que procurar o doutor, ele vai dá um jeito, até a tia já reclamou dele. Você sabe onde eu posso levá-lo? Não conheço doutores nessa área ainda, mas ouvi dizer que há muitos medicamentos bons para esse “problema”.

Autoras: Fernanda Biajoli e Laís Ávila.

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